O nada


Quem sou eu?
Algo, alguém?
Sou um bonde sacolejante,
Se metamorfoseando em trem.

É, eu sou um trem,
Que vive apitando,
Em trilhos rodando,
Num sem fim, vai e vem.

Também sou os trilhos,
Pedras, dormentes,
Fruta sem semente,
Olhos sem brilho.

Sou a terra batida,
A água parada,
O lavrador sem enxada,
O pobre sem comida.

Sou a seca do nordeste,
A praia deserta,
A hora incerta,
A doença, a peste.

Também sou solidão,
Um filho do mundo,
Um saco sem fundo,
Um descendente de Adão.

Também sou a tristeza,
Dos olhos, a lágrima,
Do tronco, o diafragma,
Do cego, a incerteza.

Também sou a espada,
Às vezes, a cruz,
O Mestre Jesus,
Eu sou o nada.

                                                                  15/01/00






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